sexta-feira, 14 de abril de 2017

PEDIDO

Quanto mais ele a abraçava ficava ainda mais difícil esquecer, seguir em frente. Ele insistia. Dez minutos havia se passado desde o momento em que ela pediu para partir.
- Deixe-me ir, preciso... - A voz denunciava a verdadeira vontade, mas ela precisava resistir.
Havia qualquer coisa de estranha naquele olhar ora tão transparente. Ele notara a confusão que ela fazia com o encadeamento das palavras. Ela gaguejava, deixava as frases interminadas, não sorria como de costume. Repetia apenas: deixe-me partir...
Outro dia ela pedira: - Vá embora da minha vida de uma vez...
- Não me peça isso por favor... Como vou deixá-la se ainda amo-te?
- Amas-me? E por que só agora diz isso para mim? Por favor, deixe-me ir...
Ele nunca tinha enxergado aquela dor que ela tanto insistia em falar. Ele agora podia sentir essa dor e era algo realmente dilacerante. Ela pedia. Por que ela simplesmente não ia embora sem dizer nada? Por que apenas não sumira, o ignorara? Ele entenderia o recado! Mas ali estava ela, com os olhos inchados, vermelhos, as lágrimas rolando sem parar e a frase derradeira: Deixe-me partir...
O que fazer quando duas pessoas se amam mas não conseguem se encontrar? Quando nada nem ninguém os completa e mesmo assim não conseguem se encaixar?
Ela já viera com frases prontas. Decidida, resoluta das medidas a serem tomadas.
Nada podia ser feito. Nem ele ali, dizendo que a amava, nem ela ali, parada, não conseguindo dar o passo de volta para casa.

Um homem que em silêncio dizia que a amava...
Uma mulher que o amava chorando todas as palavras...
(Alde Maller/2010)


  
"Falta é algo que com o tempo se aprende a deixar no canto..."

EU TE AMO


Quando você virou a esquina e levou contigo meu sorriso, vi turvo, entre lágrimas teu olhar me pedindo que eu o acompanhasse. Confesso que meus pés não me obedeciam. Meu coração gritava, tal qual desesperado, enquanto você calmamente desaparecia da minha vista. Pensei ainda que você olharia para trás para certificar-se de que eu finalmente o deixara partir. Você olhou. Não sei dizer se pela última vez, não fiquei lá para ver. Alguém de alguma janela decerto, via-me caminhar de cabeça baixa, braços estendidos e ombros sacudidos pelo irrompante choro que me descontrolava agora. Eu mesma não me reconhecia. Grunhia. Era um lamento triste. Nenhuma música ao fundo. Tudo estava tão sombrio em contraste com o sol da tua praia. Na minha cidade chove constantemente. Fica acinzentado meu céu sulista e as nuvens não aliviam a atmosfera, que anda silenciosa e tão amena.
Onde colocar nossas conversas intermináveis, nossos gostos, nossos risos, nossos desejos, nossos beijos, nossos "meu e teu"...? Lembrei por um instante de nossos defeitos truncados e que quando expostos cabiam bem no meu esconderijo. 
Pura teimosia minha ao dizer derramando aquelas três palavras de encanto e fiquei esperando que você ouvindo-as também as dissesse para mim com todos os timbres do seu delicioso sotaque, repetindo, repetindo, repetindo. 
Não escutei... acabou...
Fiquei querendo que sempre fosse dia... 

(Alde Maller/2008)

OUTRA

Ela ficou assim frente a frente...

No início era estranho olhar para aquele rosto sem maquiagens, boca sem batom. Mas o que mais impressionou-lhe foi o olhar: vazio, como se enxergasse ao longe algo que a outra não poderia enxergar. Ela começa a admitir para a outra parada ali, que tentou seguir o conselho que vinha do coração. Numa das janelas que ela o vira, imediatamente dirigiu-se até lá e soltou a plenos pulmões a sua frase favorita: "por menos que você faça e por menos que eu queira, vou amá-lo para sempre!"
A outra ficou admirando-a. Enquanto falava as lágrimas escorriam. Não que fosse perguntar o motivo, até por que ela falava, como se há muito não contasse seus segredos a ninguém.
Ela não ficara para ver a reação do passante na janela. Simplesmente desaparecera. Outras vezes ela esperaria por uma resposta. Algumas vezes recebera o silêncio ou monossílabos como se sua presença fosse incomoda naquele momento. E talvez fosse mesmo. O que ela queria? Entregava de alma seus segredos e o que a outra poderia modificar?
Durou um período de silêncio... longo tempo aliás...
Ela se foi e a outra entrou. Fechou a janela para não ter nenhuma vontade...
Talvez seja hora de ir para a cama e sonhar com o que fazer amanhã...
(Alde Maller/2009)


"DEIXA EU DIZER PRAS PAREDES, COISAS DO MEU CORAÇÃO..."

FALANDO

"Tem certas coisas que eu não sei dizer..."


Ela perdida, pediu a ele que lhe cantasse mais uma vez... O coração acelerado e os dedos retorciam inexplicavelmente diante daquele sujeito que ela jurara não mais encontrar. Ele suspira e sussurra:
"Ohh! I need your love, babe
Guess you know it´s true
Hope you need my love babe
Just like I need you"


Ele nervosamente, chegou mais perto e sussurrou em seu ouvido.
Ela arrepiava...
Ele derretia...


Seguiram calmamente como se fossem mostrar um caminho diferente
ela o dele
ele o dela...


estariam na mesma direção?
pareciam se perderem,
juntos, no mesmo instante...


- Importa-se de dizer que te amo?
- Importar-me?
- É...importar-se...
- Por que me importaria?
- De dizer ou em te amar?
- O que importa-me é que me amas...
- E tu? o que dizes? o que fazes agora?


Ele a olhava...
Havia solicitado mais uma vez a velha canção...
AMÉM...
...a escolha é sua!!!


"Tem certas coisas que eu não sei dizer..."

SINTO TANTO

Gostaria de estar errada, mas tenho que admitir que vez ou outra me pego em diálogos com meus pensamentos. Sinto-me não me situar no tempo, no espaço e por várias horas me sinto perdida, estranha, calada. Quando tiro a roupa e me olho no espelho, sinto uns olhos que não são meus, me espreitando. Olhos tristes também, assim como os meus... Nesses momentos, deito na cama e em conchinha, acaricio meu corpo para lembrar das mãos, do toque, do sussurro, do beijo... Faltam os lábios, aquela sensação de flutuar, de uma felicidade que chega a doer, bem aqui dentro, onde jaz um vazio. Encontro-me assim, jogada ao chão. É lá, no meu tapete que fico, olhando as estrelas do meu teto. Aquelas que tanto já me observaram em estados de êxtase e de agonia. Elas ficam ali, brilhando na escuridão, me olhando. Há uma certa pena no olhar que me dirigem.
Desse modo, encolhidinha, sinto perto o afago tão gostoso, o roçar dos lábios na pele, na nuca, na testa; o abraço apertado e aconchegante; os sons dos beijos.
Ouço bem de leve a voz, as nossas conversas, a minha atenção em ouvi-lo para gravar em minha memória tuas palavras e depois que te fosses, ficar relembrando-as, cada partícula de palavra que a mim dirigias. E trago aquele olhar, que me conquistou, o sorriso que me enlouquecia.
Sinto tanta falta das nossas loucuras, dos e-mails hilários que trocávamos, das horas em que ficávamos apreciando a companhia um do outro. Dos momentos que percebíamos que a única coisa que no mundo importava era estarmos juntos. Das nossas despedidas, tão sofridas. Do ficar mais uns minutinhos. Da voz rouca de sono só pra me dizer boa noite ou para me desejar um bom dia! Dos ciúmes velados, dos ciúmes escancarados, das palavras de carinho. Falta de você!
Aqui permanece a falta de risos, dos presentes esdrúxulos, mas tinham um porquê. A nossa trilha sonora, que nos embalava a todo momento, no teu carro, na tua casa, na minha casa...
Falta-me a calma de esperar até quando possamos nos encontrar e finalmente sermos felizes! Não canto mais... falta-me o calor, excede o calar...
Quando fomos apresentados pelo destino não sabia que seria assim, essa inconstância, mas mesmo assim valeu a pena.
Ah! e sinto saudade... sinto falta da brisa, do riso fácil, da canção sentimental que nos traduzia... Falta ainda mais do abraço que não demos, nos beijos que ficaram na esfera dos sonhos, de tudo que prometemos, do amor...
Tenho medo do passado.
E estou cansada de sentir algo que não posso nem nominar, por medo, fracasso, orgulho...
E não há aconchego, abraços, laços, afagos, palavras, olhares que consigam preencher essa falta, esse vazio, essa sensação de estar só, ou de estar longe, sem saber se voltará...
Fico vasculhando nossas lembranças na esperança de encontrar uma fenda que me leve junto a você. Não importa se passado ou futuro, mas que me tire dessa condição presente de estar tão sozinha, tão sem você!
E é exatamente assim que me sinto... a única certeza é essa dor latejante que me diz que ainda amanhã, a essas horas não vou me encontrar contigo, nem ouvir tua voz, nem sentir teu perfume, e não terei teu toque... Talvez um dia, mas eu queria que fosse amanhã...
Esta saudade me consome lentamente, me adoece, e é a única que não me esquece...
Queria que estivesses aqui para matarmos o tempo, para nos encontramos nos intervalos das nossas correrias e afazeres. Queria te contar minhas piadas infames e ouvir e rir das tuas sem graça. Queria sentir teu hálito bem perto e ficar admirando teu sorriso não pela fotografia. Queria ter teus beijos em cada milímetro do meu corpo, mas se simplesmente eu estivesse em teus braços, já estaria feliz! Enxergar-me nos teus olhos ainda é o meu desejo... Lembra desse meu pedido? "olhar-me em teus olhos..."
E até um toque de celular me dizendo da saudade que sentes, ou do simples "linda" tão peculiar. Queria a tua mensagem de madrugada me dizendo que não conseguias dormir e que queria ter-me ao seu lado. Queria de novo teus conselhos, tuas palavras de ironia, tuas indagações do modo como vejo a vida, tua incompreensão diante das minhas convicções. Mas queria muito mais teus ombros largos para eu me recostar.
Queria que essas lágrimas que rolam invariavelmente fossem de alegria por poder contemplá-lo. Queria minhas mãos nas suas entrelaçadas e sorrir furtivamente para que não percebesses o bem que me fazes. E até queria ouvir de novo as palavras que só você sabe que me irritavam, dizendo que me achava tão linda brava daquele jeito...
Queria que ouvisses minhas teorias doidas quanto ao futuro e das tuas perguntas se cabias neles. Sempre dava um jeito de incluí-lo nos meus mais loucos projetos. Da forma como me fazia repensar as decisões. Queria que estar perto pra nós simplesmente bastasse, nem que uma palavra fosse dita, apenas que roçássemos nossos braços e encostássemos nossas cabeças... Só isso bastaria...
No entanto, hoje estou calada... e esse silêncio me incomoda... essa distância que parece intransponível machuca e a ausência me entristece tanto.

Como eu sinto falta...

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

PENSAVA QUE ERA ASSIM...

DITADOS QUE NÃO SÃO BEM DO JEITO COMO SE SE FALA POR AÍ...(1)


Você, certamente, já ouviu ou proferiu ditados populares na vida! Isso faz parte da história de um povo! Os mais antigos tinham mais costume de pronunciar em determinadas situações ditados que pudessem de alguma maneira acalmar a situação. É a chamada sabedoria popular! No entanto, nessa oralidade através dos tempos, ocorreram algumas mudanças no seu sentido original. Fato esse que é comum nas narrativas orais. Sempre algo é acrescentado ou retirado.

Fiz algumas pesquisas sobre alguns desses ditados que em sala de aula, alguns alunos trazem de suas casas, vindos de seus avós principalmente, e questionam sobre o significado daquela expressão, em que momento seria utilizado. E alguns totalmente deturpado do sentido original. Provavelmente você também aprendeu-os assim:

1)
ERRADO: QUEM TEM BOCA VAI A ROMA! (e eu sempre imaginei: eu tenho e nunca fui!) - que significa que aquele que se esforça, sempre alcança; ou que se você perguntar poderá chegar a qualquer lugar...) Tem seu méritos!

CERTO: QUEM TEM BOCA VAIA ROMA! (isso mesmo! o verbo é 'vaiar'  - buuuuuuuu - significando que quem está descontente com a situação do império, das ações do governo, não fica calado, manifesta-se!)

2)
ERRADO: QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COM GATO! (e como faço para o gato me obedecer? andar comigo?) significando que se você não tem os meios adequados, não desista, improvise! Tem sua lógica!

CERTO: QUEM NÃO TEM CÃO, CAÇA COMO GATO! (olha uma letrinha só, fazendo toda a diferença) O gato não gosta de sair acompanhado. Ele é solitário em suas buscas. Se não tem com quem ir, vá você, esgueirando-se, quietinho, até cumprir sua meta! O importante é não desistir!

3)
ERRADO: COR DE BURRO QUANDO FOGE! (que cor exatamente é essa?)

CERTO: CORRO DE BURRO QUANDO FOGE! Significando literalmente o que se diz! É melhor correr que levar coices!

4)
ERRADO: ENFIOU O PÉ NA JACA! (o que isso tem a ver?)

CERTO: ENFIOU O PÉ NO JACÁ! (AH o acento gráfico) Nos tempos antigos, os bares tinham nos fundo cestos, chamados JACÁS, onde eram jogados lixos, frutas, verduras. Enfiar o pé nos jacás, era uma forma de dizer que bebeu tanto que nem  via mais o que estava pela frente.

5)
ERRADO:  Batatinha quando nasce, se esparrama pelo chão... (Você já viu alguma batatinha esparramada? - sempre pensei nisso - Não tem sentido) 

CERTO: Batatinha quando nasce, espalha a rama pelo chão... (depois disso entendi o que são tubérculos...)





DIALOGANDO COM DRUMMOND

Viver não dói! (Carlos Drummond de Andrade)





O CARLOS, carinhosamente alcunhado por mim(petulantemente) de Cacá conversou comigo dias desses. E foi interessante. Chorei na frente daquele poeta que se sentou junto ao mar e lá, naquele lugar paradisíaco, eternizou-se. Ele disse:

CD: Viver não dói. O que dói é a vida que não se vive. Definitivo, como tudo o que é simples. Nossa dor não advém das coisas vividas, mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram. 

EU: Mas é bem por isso Cacá que sofro. Por que aquilo que sonhei não se tornou realidade visto que era tão bom? E parecia um grande amor...

CD: Por que sofremos tanto por amor? O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez companhia por um tempo razoável, um tempo feliz. 

EU: Mas eu queria a tal da eternidadeou que durasse um tanto mais... Concordo com ter conhecido alguém especial, mas e o que fazer com essa dor, esse sofrer?

CD: Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter tido e não tivemos, por todos os shows e livros e silêncios que gostaríamos de ter compartilhado, e não compartilhamos. Por todos os beijos cancelados, pela eternidade interrompida. 

EU: ...os beijos cancelados... assim fica ainda mais sofrível... Existem passos para aliviar essa dor?

CD: Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um verso: se iludindo menos e vivendo mais...

Olhei para o ele, ali, tão convicto, com as mãos segurando um livro - acho que o seu mesmo - pernas cruzadas, sentado no banco por fundo o mar. Drummond dava as costas ao mar. Só um poeta mesmo para a loucura desse ato. Depois dessas lições resolvi dar um mergulho. Pode até ser que viver não dói, mas mergulhar nessas águas é o que mais quero no momento! 
(Alde Maller/2006)