sábado, 23 de fevereiro de 2013

COISAS DO BARDO INGLÊS


No  filme "10 things I hate about you" o professor pede aos alunos que façam uma releitura dos sonetos de Shakespeare. A personagem principal, feita pela atriz Julia Stiles, é do estilo "Megera indomada", que ninguém consegue vencer nos entraves e não se apaixona facilmente. Apesar do enredo ser bem estilo americano: colégio, baile de formatura, jovens brigando por causa da garota sensação do colégio, o 'gostosão' em vantagem com a garota e um rapaz sem chances conseguir aos poucos se aproximar, a atuação de Heath Ledger como o garoto 'esquisito' é impressionante. Aliás esse ator é impressionante em todos os filmes, uma pena ter desistido da vida. No filme em questão, ele é pago para conquistar Kath (Julia Stile) para que o caminho fique livre e a irmã dela possa sair com os rapazes, coisas que o pai é totalmente contra. tem umas cenas engraçadas: as conversas do pai com as filhas sobre a paranoia da gravidez, a música nas escadas do estádio da escola em que Patrick (Heath Ledger) tenta chamar a atenção de Kath, esta na tentativa desesperada de livrar Patrick da detenção, mostra os seios para o professor, e por aí vai. A cena máxima, o clímax, é quando tudo é descoberto, e Kath então já apaixonada pelo rapaz esquisito e sedutor, fica profundamente decepcionada com a atitude mesquinha do moço em ter aceitado a proposta indecente de conquistá-la por dinheiro. É claro que ele também, nesse ínterim, apaixona-se também pela moça de gênio difícil, mas precisará provar que tudo não passou de idiotice de momento. O mais interessante desse roteiro é justamente a forma como Shakespeare é abordado, tanto na personagem principal quanto no poema, em que Kath, visivelmente emocionada faz a leitura da construção de seu poema para toda a classe, olhando para Patrick, totalmente constrangido e pensativo.
Vale a pena assistir pela intertextualidade brilhante!


SONETO 141

Por crer, não te amo com meus olhos,
Pois eles em ti veem mil defeitos;
Mas é meu coração que ama aquilo que desprezam,
Que, apesar de ver, se comprazem com o que sentem.
Nem se alegram meus ouvidos ao som de tua língua;
Nem sentimentos doces nascem de teu toque,
Nem sabor ou perfume são bem-vindos
A qualquer festim sensual a que me convides:
Mas meus cinco sentidos não podem
Dissuadir um coração tolo de servir-te
Que deixas imperturbado como um homem,
Escravo e vassalo de teu coração altivo:
Somente em desgraças conto os meus ganhos,
Pois aquela que me faz pecar, também me faz sofrer.


POEMA DO FILME '10 COISAS QUE EU  ODEIO EM VOCÊ"

Eu odeio o jeito que você fala comigo,
e eu odeio o jeito que você corta seu cabelo
Eu odeio o jeito que você dirige meu carro
Eu odeio quando você encara.
Eu odeio suas grandes e idiotas botas de combate,
e o jeito que você lê minha mente.
Eu te odeio tanto, que me faz ficar doente,
E até me faz rimar.
Eu odeio que você está sempre certo.
Eu odeio quando você mente.
Eu odeio quando você me faz rir,
até mais quando você me faz chorar.
Eu odeio quando você não está por perto,
e o fato que você não me ligou...
Mas ainda por cima eu odeio que eu não te odeio,
Nem perto,
Nem mesmo um pouco,
De jeito nenhum."

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

CRÔNICA


KISS – O ÚLTIMO BEIJO

O primeiro beijo a gente nunca esquece! Pode ser bonito, feio, demorado, rapidinho, roubado, tímido, esperado, sonhado. Em geral, e depende do tempo em que isso aconteceu, sorrimos do nosso comportamento nesse momento tão especial e esperado.
O último beijo não tem a mesma lembrança. Os principais jornais de todo o mundo noticiaram um triste último beijo. Na madrugada de sábado, para muitos jovens de Santa Maria-RS o beijo foi o último. Talvez alguns presentes ainda nem tivessem a experiência do primeiro. Mas foi o último.  Também difícil de esquecer!
Quantos sonhos amontoados em um só lugar? Alguns na expectativa da conclusão da faculdade. Outros comemorando a entrada nela. Alguns querendo diversão com amigos, namorados, parentes. Outros acompanhar o trabalho de sua banda favorita. Alguns comemorando aniversários. Outros apenas acharam algo interessante para se fazer em um sábado à noite.
O ambiente era de festa! Se você estivesse lá pensaria nas condições de segurança? Quando somos impelidos a ir a uma festa, implicitamente sabemos que voltaremos! Muitos sábados na boate Kiss, como em várias boates pelo país, deram certo. Ninguém imaginaria que algo tão ruim pudesse acontecer. Talvez alguém tenha se desentendido no interior da casa de shows, mas rapidamente conseguiu contornar a situação, pois o mais importante era aproveitar o momento de diversão.
Mas uma confusão não conseguiram contornar. Em alguns segundos apenas, a tragédia ganha uma proporção inimaginável. Tumulto, gritos, correria, fumaça, escuridão. Cada um tentando se salvar, procurando uma saída. Mas não havia saídas suficientes. As saídas imaginadas acabaram sendo a última porta a cruzar. Aquilo não fazia parte da festa!
Minutos tornaram-se horas intermináveis. Aqueles que conseguiram sair do horror não acreditavam no que estava acontecendo. Alguns voltavam para procurar seus parceiros que se perderam na confusão. Ficaram lá! E não voltariam mais...
Uma grande comoção! Os números de mortos foram aumentando. Os caminhões chegavam. E corpos iam sendo amontoados para serem removidos daquele caos. Mas o caos se estabelecia por toda a cidade. Parentes foram acordados na madrugada. Quando o telefone toca de madrugada você já imagina algo ruim. E as notícias foram chegando.
Apesar de tantos esforços, muita coisa não foi suficiente. As picaretas para abrir as paredes não foram suficientes. Os tubos de oxigênio e máscaras não foram suficientes. Os leitos na cidade não foram suficientes. Os carros fúnebres disponíveis não foram suficientes. As pás, que antes eram utilizadas para abrir os túmulos no cemitério da cidade, não foram suficientes. Maquinários pesados foram solicitados para atender a demanda. Nem os cemitérios foram suficientes. Quem procurou coroas de flores para fazer a última homenagem, também não achou. Até as flores foram insuficientes.
Este último beijo ninguém quis. O último beijo agora é dado pela mãe, pai, namorados, parentes e amigos que estavam do lado de fora. E isso é inesquecível!
(ALDENIR MALLER)
28/01/2013

sábado, 11 de fevereiro de 2012

DEIXA PRA LÁ

"PARA O TRIUNFO DO MAL SÓ É PRECISO QUE HOMENS BONS NÃO  FAÇAM NADA." (Edmund Burke)

Muitas vezes vemos coisas erradas como falta de humildade, falta de humanidade, falta de compaixão, falta de amor, falta de empatia, falta de simpatia, falta de comunhão, falta de irmandade, falta de coragem, falta de agilidade, falta de sossego, falta de tranquilidade, falta de bondade, falta de benignidade, falta de longanimidade e tantas outras faltas. Assistimos tantos disparates em nosso meio, na vida real que nos acostumamos a 'deixar pra lá'... 'Deixa pra lá', todos deixaram o que EU posso fazer? 'Deixa pra lá' não vai dar em nada mesmo! Pior, 'Deixa pra lá' nada nem ninguém consegue mudar essa situação!

Pasmem!! Estou falando de ambiente cristão. Sim! Pessoas declarantes crentes no poder de Deus para transformar vidas, para mudar o que quer que seja. Há muita fala dentro das igrejas. Fala de Deus, do Seu imenso amor, da Sua bondade, do que Ele faz e fará mas há pouca demonstração de tudo isso através das vidas. Sim! Nós somos peritos em mostrar o caráter de Deus. Quando somos indagados: 'Quem é Deus?' respondemos prontamente com voz quase trêmula: "DEUS É NOSSO REFÚGIO, FORTALEZA, SOCORRO, AMOR". Mostramos claramente que conhecemos todos os atributos de Deus! Alguns até utilizam o padrão mais culto da língua (não que isso não se deva, claro) para impostar uma certa confiabilidade: 'O SENHOR É EXCELSO E MAGNANIMO"! Talvez o interlocutor nunca tenha ouvido as duas palavras citadas, mas ele saberá que é algo estupendo. (aliás esta última palavra não se usa tão corriqueiramente assim)

Mostramos Deus! Como se fosse um produto. Sorrimos, abrimos os braços, gesticulamos, fechamos os olhos até. Que bom! Mostramos Deus, como marqueteiros e dos bons. Bem que Deus poderia nos contratar como Departamento de Marketing dos céus. Afinal, mostramos (uma forma eufemística de dizer 'vendemos') Deus de forma perfeita!

As igrejas estão cheias de 'mostração' de Deus! Algumas com recursos mais simples, ainda com culto nos livretos de cânticos, uma guitarra velha faltando uma corda, com aqueles irmãos que vão fazer apresentações e dizem na introdução: "Vou louvar a Deus... não ensaiei, mas não tem problema, Deus aceita mesmo assim". Outras, com mega shows, lousas interativas, cultos transmitidos quase que holograficamente, tecnologia de ponta nas mesas de som, equipamentos caros, instrumentos valiosíssimos. Som, Câmera e Ação... Pessoas trajadas na mais fina estampa (e não me refiro à novela), cada um disputando a melhor roupa nova para o próximo culto.

Cultos cada vez mais controlados, com horários reduzidos, pois estamos na era do fast-food, tudo rápido, afinal nossa vida é preciosa, precisamos vivê-la e convenhamos, domingo à noite precisamos chegar cedo em casa, pois... pois... é... bem...

Ao final do culto, antes de responder ao 'boa noite' do irmão, ouve-se a pergunta: "fulano, viu aqueles despudorados embaixo do edredon"? E aí a conversa se estende um pouquinho mais. Claro, esse comentário foi apenas para é... é... 'orar por esses programas inadmissíveis que envergonham nossos lares e práticas dos bons costumes'.

E assim foi a mostragem desse Deus. Com duração mais ou menos de 2 horas. Mostramos Deus. Mostramos Jesus. Mostramo-nos!

Eu iniciei dizendo que muitras vezes nos omitimos diante das situações erradas. O mundo tem invadido a igreja de tal forma que não conseguimos mais discernir entre liberalidade e verdades imutáveis. O hedonismo toma conta de nossas programações, de nossas atuações, de nossas ações. As pregações não podem ser coersitivas pois muitos sentem-se afetados e dispensam mais um 'estresse' em suas zonas de confortos.

Vemos pessoas tratando uns aos outros com dureza de coração, olhos que não se cruzam, perdão não liberado, perdão não solicitado, corações magoados, comentários maldosos e tendenciosos, práticas fora do padrão bíblico, coisas escondidas. Isso, dentro das nossas igrejas. No mundo essas ações são normais até, embora exista um código de moral e ética que também proíbem tais práticas, mas dentro dos templos percebemos um distanciamento entre aquilo que se prega e o que se vive, e? Deixamos pra lá!

Mostrar Deus é diferente de Demosntrar o seu caráter! Precisamos demonstrar o amor, não só falar. Demonstrar a confiança, não apenas mencionar em nossos discursos inflamados. Demonstrar compaixão! O melhor mestre de todos os tempos nos ensinou de maneira simples como demonstrar. Ele próprio demonstrou com a sua própria vida.
 
Em João 1:45-46, Filipe encontrou Natanael e lhe disse: “Achamos aquele de quem Moisés escreveu na lei, e a  quem se referiram os profetas, Jesus, o Nazareno, filho de José. Perguntou-lhe  Natanael: de Nazaré pode sair alguma coisa boa? Respondeu-lhe Filipe: Vem e  vê”

Podemos dizer isso? Alguém pergunta: 'o que Deus pode fazer por mim?' E dizemos: Vem e vê! E a pessoa começa a nos acompanhar e perceber o amor, a mesma compaixão vista em Jesus, também em nossa vida, em nossas ações, em nossas atitudes. Demonstrar é isso! Não apenas dizer a alguém que está faminto: 'que o Senhor te alimente, te ajude, te conforte' mas considerarmos que somos o recurso de Deus para abençoar a vida daquela pessoa.

Vem e vê! Somos capazes de abrir os portais das nossas almas? Abrir as janelas de nossos cômodos mais escondidos? Fazer que Deus transpareça através de nosso olhar? De usar a nossa língua para simplesmente abençoar?

Vem e vê! Talvez seja hora de ouvirmos esse convite de Filipe a nós mesmos que nos consideramos 'velhos' de caminhada com o Senhor.

Ouse! Diga ao seu companheiro de trabalho, ao seu colega, ao seu namorado(a), familiares, amigos, vizinhos, companheiros, amados, conhecidos: 'Vem e vê'! 

Ou, vamos continuar a deixar pra lá???

Aldenir Maller

terça-feira, 6 de setembro de 2011

LETTERS TO GOD

Acreditando no impossível e mantendo uma fé inabalável, Tyler, um menino que tem câncer, escreve cartas diariamente para Deus em forma de oração. Um filme maravilhoso que nos faz refletir sobre nossa fé e intimidade com o Pai.  
 
Sinopse: “Cartas para Deus” (Letters to God), Tyler Doherty (Tanner Maguire) tem 8 anos e sofre de câncer, os médicos estão desacreditados sobre suas chances de vida. Apesar da situação difícil Tyler coloca sua fé em Deus acima de tudo, por meio de cartas diárias começa a escrever um diário sobre suas esperanças de que algum anjo possa salvá-lo.
Diretor: David Nixon, Patrick Doughtie
Elenco: Robyn Lively, Jeffrey Johnson, Bailee Madison, Maree Cheatham, Tanner Maguire, Michael Bolten, Dennis Neal
Produção: Tom Swanson, Art D’Alessandro, Andre Dugger, David Nixon
Roteiro: Art D’Alessandro, Sandra Thrift, Cullen Douglas
Trilha Sonora: Colin O’Malley
Duração: 110 min.
Ano: 2010
Gênero: Drama

quinta-feira, 26 de maio de 2011

THE LOST THING


Geralmente quando andamos na rua e nos deparamos com pessoas de atitudes 'estranhas', vestimentas 'estranhas', jeito 'estranho' automaticamente nossa atenção volta-se mais de uma vez para a 'figura estrambótica'. No filme "The Lost Thing" - A COISA PERDIDA - que ganhou o oscar de Melhor Curta de Animação, conferido pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas dos Estados Unidos, acontece exatamente o contrário. As coisas que deveriam chamar a atenção, passam despercebidas. O curta tem 15 minutos apenas (bem curto) mas é grandioso!É uma adaptação do livro "Lost & Found" do autor e ilustrador Shaun Tan.


A obra animada é sobre um menino que ao procurar por tampas de garrafas na praia, encontra uma criatura estranha, muito estranha,meio bicho, meio máquina. É narrado em primeira pessoa. Surpreende pela originalidade e qualidade. Embora pareça ser uma história simples e infantil, é no decorrer da trama que descobre-se que o público a que se destina é o adulto. O fato da frieza com que a sociedade trata aquilo que lhé é 'diferente' com indiferença fica claro ao longo do curta. Em um momento da animação o menino e a 'coisa' estão contrários à correnteza. E ninguém, apesar do aspecto nada convencional e até assustador da 'coisa', presta atenção ou para para questionar o que é 'aquilo'.



Só o menino age de forma diferente... Ele de uma certa forma simpatiza-se e até identifica-se com a coisa no momento em que a conhece. Ele passa despercebido pela sociedade que o cerca, a única que presta atenção é a estranha criatura. A 'coisa', como ele passa a chamá-la, aproxima-se dele contextualizando através de uma bola de futebol. Ele sente-se responsável por achar um lugar onde a estranha criatura possa ficar já que em sua casa é proibido pelos pais a deixar aquela coisa passar a noite.



A 'coisa' revela-se com uma certa inocência ao menino e uma ingenuidade cativante. A confiança e a amizade que dedica ao menino é impressionante. Dá a impressão de que o menino ao tentar achar um lugar em que aquela criatura pertença, acaba por descobrir um mundo que antes ele não conhecia. E a percepção que ele tem de que talvez não haja tanta coisa perdida mais nesse mundo onde ninguém presta atenção em nada, acaba por fazer a revelação da história: coisas estranhas não aparecem com tanta frequência ou 'talvez simplesmente tenha parado de percebê-las, ocupado demais fazendo outras coisas..."



Sensacional!

domingo, 19 de setembro de 2010

SILÊNCIO

Fala comigo em silêncio...
vou entender mesmo que não profiras nenhuma palavra.
já provocamos muitos ruídos com os ditos que não queríamos
e acabamos não pronunciando o que sentíamos...
o som que sai da nossa boca não traduz o que vai n'alma
por isso a solução é o nosso silêncio...
ninguém precisa saber o que sentimos
nem eu... nem tu...
quando cruzarmos nossos olhares, que eles não demonstrem os medos,
que façam promessas ousadas, que jamais pudéssemos cumprí-las...
e se teu sorriso costumeiro aflorar, que seja carregado de desejo
dizendo que está feliz pela minha presença...
e se quiser pode me ennvolver naquele abraço,
fazendo que eu sinta o teu coração bater descompassadamente
e então…
beija-me... beija-me... beija-me demoradamente...
deixa-me sentir aquele arrepio que a tua boca me provoca e que me percorre o corpo.
desde os dia em que enredei os meus dedos nos teus tive a sensação que fiz você compreender que me pertences
e que jamais te deixaria partir...
não me deixe então conformar-me em que tu desistas de mim!
Traduz rápido o meu silêncio!?!
(Alde)

NÃO DIZ...

"Se você me convidar para um simples café, farei questão em ir. Estou feliz! E se você não achar vaga no estacionamento, não faz mal, tem seguro, o que importa é que estaremos juntos!"
Foi assim que ele me levou... Shopping cheio, nada de privacidade. "Tem algo que você queria me dizer?" Você sorri da minha pergunta, indiscreta aliás, e nada diz! Um sorvete, daqueles que você sabe tão bem que gosto. E que você só toma para me acompanhar, pois diz que tem um gosto amargo. Enquanto me delicio, você me olha, observa, eu diria. "Você está tão enigmático!" Quando saímos daquela confusão de gente gritando, andando, correndo, rindo, achei que finalmente você me diria. Abriu-me a porta, fez uma mesura e sorriu. Deu a volta, entrou no carro, colocou o cinto de segurança e percebi nervosismo nos dedos ao errar o encaixe do teu. Ouvi teu respirar de alívio, quando com o carro já em movimento, ouvimos o "click" encaixado.
Confesso, senti-me estranha, enquanto o carro silenciosamente trafegava pelas ruas agitadas de cidade grande em pleno feriado. Não sei se pelo clima, café, sorvete, mas o fato é que estava desapontada por não aproveitares o momento para me fazer algum carinho, como sempre o fazia, quando me ajudava a colocar o cinto. Claro que era nossa desculpa, mas senti falta disso nesse instante. Talvez pelo fato de que eu me sentisse mais segura, não por causa do equipamento de segurança, mas em sentir teus braços em volta de mim. Senti-me desprotegida, como há muito tempo não sentia.
Lembra daquele dia? Em que paramos o carro no estacionamento, quase vazio, e que ao retirar meu cinto, jogava a cadeira para trás e dizia: "e agora? o que poderá fazer?" Sentia-me tão segura dessa forma. E só tomei consciência agora, depois desse nosso sorvete gelado! O que dizer ainda das tuas tentativas de tentar advinhar meus gostos e levar-me ao cinema para assistir teus gostos por filmes estrangeiros, mesmo sabendo que tenho receios se não leio a sinopse antes e me certifico que há uma boa crítica em relação a eles. Aprendi a confiar no teu bom gosto, a partir disso.
Aos poucos foi se tornando comum os teus acertos nos meus gostos mais estrambóticos aos mais comuns. Deve ser por isso que as maiores surpresas da minha vida, foram trazidas por você. É como se você se especializasse em me fazer sentir feliz! Não pelo valor dos objetos que me presenteavas, mas pelo sentimento que emprestava a eles, pela criatividade em me apresentar a eles e principalmente pela forma inovadora de fazer as mesmas coisas de forma tão incomum.
Quando teu braço tocou o meu, na curva logo adiante, acordei de meu devaneio e pude perceber uma ruga de preocupação em tua testa. O que te vai ao coração? Tu consegues me ler tão bem! Mas para mim tu és um estanho ultimamente! Apesar dos gosto tão em comum que temos sabemos que ainda muitas coisas são inversamente proporcionais e que tem feito toda diferença na nossa reaproximação. É explícito em nós esta vontade que temos que fiquemos juntos, mas há algo que nos impede de nos juntarmos tão simples assim! Você tem poupado palavras que antes eram tão corriqueiras em teus lábios. Eu tenho tido dificuldades para organizar meu pensamento e medo em pronunciar algo que te magoe.
Tenho saudades, muitas saudades. E sei que foram os meus defeitos e minhas características adversas que levaram a ruir tudo o que de bom havia em nós. O que acho estranho ainda, é que mesmo assim, ficamos encantados um com o outro e que ainda tenhamos esperanças em reatar de alguma forma esse casal que um dia fomos ou sonhamos ser.
E o que me intriga ainda mais é essa teimosia minha em achar que nada será tão diferente assim... Mesmo que eu não saiba explicar o porquê, razão, motivo...
O carro pára... Eu só quero descer e ir para o meu quarto! E deixo claro isso para você no meu adeus! A última coisa que escutei da rua, foram os pneus se afastando vagarosamente e sem ouvir o que você tinha a me dizer...
(Alde)